Sou um castelo de areia, o vento pode me despedaçar mas nunca me destruir, sempre estarei em algum lugar mesmo que fracionada, mesmo que seja uma parte infima mas ainda estarei ali, não posso e não devo deixar de existir. Não importa o quanto te diminuam, você ainda existirá, como um castelo de areia.
Penso estar segura, penso não ser mais fragmentada naquela linda tarde de sol e sem vento, lá vem o mar e destrói a minha figura, fico como uma caricatura, sem saber ao menos como me reconstruirei novamente, perde-se toda a imagem, o recente, mas nunca a essência de ser quem se é.
Sou um castelo de areia, todos querem me derrubar, a construção de mim nunca é suficiente para terceiros, sempre há o que mudar, remendar, reconstruir, dividir, multiplicar... aos meus olhos? Não, aos olhos destes terceiros, muitas vezes tão próximos que despedaçam meu coração de areia que um dia fora pedra mas de tanto batido virou areia e feito está o dito popular.
Não escrevo como uma metáfora e sim como me sinto, não posso me descrever como marmore, invejavelmente sólido e estável, posto que sou matéria prima feita de lava pastosa e instável. Há um jogo de espelhos dentro da minha alma, eles refletem infinitas partes de mim, muitas inteiras, muitas em pedaços, e muitas ainda que somente uma sombra. Não é uma questão de escolha e sim de realidade, os sonhos são lindos mas a realidade tem a vantagem de ser concreta. Ninguém amassa o abstrato, ninguém beija o abstrato, ninguém é feliz com o abstrato, o ser humano necessita do visível, do palpável , do agradável... e ainda que insistam dizer o contrário, eu não um alien, eu tenho sentimentos e necessidades concretas.
Sou um castelo de areia, decidi reconstruir-me com minhas próprias mãos, com a vantagem de ligar grão a grão com o meu próprio orgulho, escolhi o melhor lugar da praia, os melhores grãos de areia. Trabalhei duro, adquiri materiais antes inexistentes, força de vontade dobrada, insistência triplicada, e um crescimento implacável. Fiz um castelo mais resistente porém vezes e vezes mais solitário.
Traço planos todos os dias e vivencio nem um terço deles, quando vivo deixando ao acaso acabo vivendo os planos. Pouco difere o acaso do plano, a escolha da vontade. Há um casamento, umas parcimônia, uma divisão de bens devidamente ajuntada, há mais de mim naquilo que não gosto do que eu possa imaginar e há menos de mim nas minhas vontades do que a própria vontade de satisfazê-la . Há milhões de pedras dentro de mim que viram parte do grande castelo de areia e há mais areia endurecida do que muita pedra batida.
E o final, como termina?
Sou um castelo de areia...